sábado, 12 de setembro de 2009

HARD WORKING BAND




Sessão “Vamos matar a saudade”... Segue mais um texto escrito em 2002 quando fiz um teste para cantar na “Hard Working Band” (Banda de soul music que teve seu auge lá pelos anos de 2000/2001 em Porto Alegre). Segue a íntegra: O CONVITE Era final de agosto de 2002. Estava em casa, sozinho, curtindo meus últimos e merecidos dias de férias. Até que no meio da tarde o telefone toca:
-“Alô, eu poderia falar com o Márcio”?
Era o Duda, ou para quem preferir Eduardo da Rosa Alves, grande amigo e colega tenor coro da Procergs.
Conversamos durante alguns minutos, mas senti que o Duda queria me dizer algo. Até que entramos no assunto “música”. O Duda comentou sobre um show que o “Vocal 5” (grupo musical A capella do qual participa) pretendia fazer com a Andréia Cavalheiro e a Letícia Oliveira da Banda de soul music “Hard Working”: -“Sabe aquele show que eu te falei? Pois é, ele foi cancelado. Parece que houve alguns problemas com a banda. Lamentamos o fato. Éque eu ficava enchendo o saco do Eduardo, perguntando sempre sobre esse show. Queria assisti-lo. O Duda então criou coragem e falou: -“Tenho uma coisa pra te falar. É que os guris (Jonatas Prates e Nelson Ebelt) vão deixar a banda”... (...) Silêncio no ar. Naquele momento fiquei muito triste, pois estava vendo uma de minhas bandas preferidas se dissolver. Os dois vocalistas resolveram pedir licença e se retirar definitivamente. -“Calma! Eu não te contei o resto. Sabe quem foi convidado para fazer teste para entrar como vocal na banda? Eu”. Novamente fiquei perplexo. Até cair a ficha lá se foram 5 segundos. O Duda poderia entrar para a “Hard Working”. Que maravilha. Já fiquei todo orgulhoso. Se fosse chamado estariam fazendo uma escolha e tanto. Fiquei muito feliz. Mas ele interrompeu minha euforia e disparou logo: -“Márcio, eu não aceitei”! Pela terceira vez, me surpreendi. Ele me explicou que não conseguiria se dedicar a mais um compromisso (ele canta oficialmente em três grupos, pelo menos é o que tenho conhecimento). Mas nem todas as bombas foram lançadas: -“As gurias então me pediram para eu indicar alguém, então eu te indiquei”! Por instantes não entendi a situação. Pedi para ele repetir. O Duda havia me indicado a fazer um teste para entrar para a banda. Puxa vida, que presente. Cantar Na minha banda de soul music preferida.
Passou-me o telefone celular da Andréia para eu marcar o teste. Logo depois de desligar, liguei imediatamente para ela. Eu estava muito nervoso. Ela atendeu com sua voz suave. Me identifiquei como amigo do Duda, ai ficou tudo em casa. Ela foi muito gentil e passou as primeiras coordenadas. Pediu para eu passar na produtora e pegar um cd com as músicas do teste e as letras. Eram ao todo quatro temas: Duas em inglês (Soul Man e My Girl) e duas em português (Todo o meu canto e Mandei cancelar). Tive exatamente uma semana para ensaiá-las. Estava tão apreensivo que não consegui dormir direito já no dia da notícia. Bem, a sorte foi lançada. O TESTE Comecei a sofrer com uma semana de antecedência. Na madrugada de terça para quarta (03 para 04 de setembro), não preguei o olho. Trabalhei o dia inteiro com aquele frio na barriga. Confesso que pensei em desistir, mas logo tirei essa idéia da cabeça. Caia à tarde. Eu tive que passar em casa para pegar o CD e as letras. Fiz aquecimento vocal e tomei muita água.
Já na Marcílio Dias, eu respirava fundo. Cheguei ao estúdio Nazari um pouco adiantado. Toquei a campainha. A menina baixinha atendeu: -“Oi! Eu tenho horário marcado com o pessoal da “Hard Working”! -“Ah, claro! Pode entrar. O Carlos já está ai”. Realmente o Carlos Mallmann (trombonista) já esperava olhando pro relógio. Percebi sua pontualidade. -“Oi, tudo bem! Eu sou o Márcio. Vim fazer o teste com vocês”. -“Legal cara, senta ai que o pessoal deve estar chegando. Bah cara, tu é figurinha carimbada nos shows, eu me lembro de ti”. Claro, eu ia a todos os shows da banda. Batemos um papo na ante-sala enquanto a “Black Master” ensaiava no estúdio. O Mallmann contava que os caras (Jonatas e Nélson) estavam saindo da banda na boa.
O pessoal chegava aos poucos. Até que se reuniram a portas fechadas no estúdio. Eu estava bastante apreensivo, andando de um lado para outro. A Letícia veio me chamar; -“Oi! Tu és o Márcio, né? Entra e fica a vontade. Os guris estão terminando de afinar os instrumentos.
Com exceção do Anginho do Trumpete e do Deco Oldmann que chegaram atrasados, a banda estava reunida. Somente os ex-integrantes não compareceram (obviamente). A Andréa pediu para eu testar o microfone:
-“Tá bom? Ta grave demais? Se não tiver bom, dá um toque. Quem comanda este ensaio é você, portanto faça o que quiser”! Antes de começar, falei que tive dificuldades com a tonalidade de Soul Man. Então eles disseram que poderiam abaixar meio tom. Decidi encarar assim mesmo, em mi maior. Começamos com “My Girl”, a minha preferida. Não precisei decorar a letra, pois canto essa canção desde os meus quinze anos, quando aprendi as primeiras noções de violão. E, além disso, sou fã dos “Tempatations”.
A segunda foi “Todo o meu canto” e a terceira “Mandei cancelar”. Por serem letras em português, não tive problemas em cantá-las. Gosto e entendo inglês, porém prefiro cantar em português. Sou filho da “Bossa” com o “Samba”. A quarta e última música foi à temida “Soul man”.
Confesso que foi a pior interpretação. Por ser uma música bastante forte e por eu já estar “grilado” com o tom, o desempenho foi ruim. Cheio de altos e baixos. Todos me olhavam para ver se estava tudo bem. Me deixaram super a vontade. Foram fora de série.
Depois do teste vocal fizeram uma mini entrevista. Primeiro apresentei-me. Dei minha ficha completa. E todos ali, me olhando, me analisando. Uma seriedade desconfortável. E no final do discurso disse que sendo ou não escolhido, o importante foi ter participado e de ter ganhado um “ensaio com minha banda preferida”. Todos riram e disseram que foi um prazer.
Ao findar agradeci a todos pela paciência. Letícia me conduziu até a porta, onde cruzei com o próximo candidato. Era outra figurinha carimbada nos shows da banda, o Maurício.
Maurício foi o escolhido, com todo o mérito, pois cantava e interpretava com a alma. Mas a permanência dele durou apenas um ano, pois a banda resolveu acabar de vez, lamentavelmente. Cada um seguiu seu caminho. Andréia faz jingles publicitários, faz backing vocals esporádicos para a Ultramen e tem uma Banda chamada “Dea’s Gang”.
Já a Letícia foi morar em São Paulo. Participou do programa do Raul Gil como caloura e ainda foi integrante do programa “Fama” da Globo. O restante do pessoal foi seguindo caminhos diferentes.
Não tenho queixas ou reclamações sobre aquele dia. Foi fantástico para mim. Uma grande honra e sem dúvida um grande aprendizado. Sai de lá com a sensação de dever cumprido. Tomei meu rumo em direção á Avenida Praia de Belas satisfeito pelo presente que recebi do Duda. O mais importante para mim naquela noite de setembro foi ter ensaiado com eles, uma banda memorável e inesquecível. Com certeza sou um fã realizado.

O BRUXO EM PORTO ALEGRE

Este texto é de 2001 e foi escrito para a disciplina de entrevista e reportagem quando eu cursava jonalismo na Unisinos. Fala sobre um workshop que o músico Hermeto Pascoal oefereceu em Porto Alegre. vale a pena lembrar. Segue a íntegra:

Nesta sexta-feira, dia 14 de setembro de 2001, o músico alagoano Hermeto Pascoal presenteou os porto-alegrenses com uma oficina de música gratuita.
O Teatro Renascença ficou lotado para ouvir os sons e as estórias que o "Mago da Música" tinha pra contar. Brincalhão e muito simpático, já na fila de entrada do teatro, Hermeto aproximou-se do público e perguntou:
-"Esta fila é para ver a Xuxa"?
Gargalhada geral. Ali, o gênio mostrou-se simples e muito bem humorado.
A apresentação começou descontraída. O músico multinstrumentista trouxe uma bolsa que chamou de "a sacola de bugigangas", de onde tirou vários objetos estranhos. O primeiro foi uma pequena chaleira, de onde inacreditavelmente Hermeto soprou e fez um som de trumpete. Homenageou o amigo Miles Davis e depois de tocar um breve tema na chaleira, disse o seguinte:
-"Albino Crazy"! Era assim que o Miles me chamava.
Pascoal contou como começou a fazer música:
-"Meu avô era ferreiro. Jogava os restos de ferro fora e eu os pegava. Tirava sons lindos, mas minha mãe achava que eu estava ficando maluco, mas com o tempo ela até chorou me ouvindo tocar. Eu tinha mais ou menos oito anos".
Logo demonstrou sons feitos com a camisa, com a buchecha e com a barba. Quando um celular tocou na platéia, atrapalhando a palestra, o músico largou o microfone e correu para o piano que lá estava. reproduziu o som do celular e tocou durante uns dois minutos. As pessoas assistiam deslumbradas o poder de captação e audição aguçada que o velho senhor de sessenta e poucos anos mostrava. Ao término da apresentação improvisada, Hermeto foi aplaudido de pé e logo pegou o microfone dizendo visivelmente emocionado:
-"Isso tinha que acontecer. Isso é música"...
Da sacola de bugigangas ele tirou uns brinquedinhos de borracha, daqueles para bebês. Com eles fez um belo maracatú. Homenageou um amigo gaúcho, o também músico Renato Borghetti, tocando na sanfona a música "Tomando um chimarrão" que compôs para Borghettinho.
Respondeu algumas perguntas e logo convidou a platéia para improvisar com ele no palco. Vieram flautistas, pianistas, violonistas e percussionistas.
O alagoano deu um show juntamente com os convidados de última hora e preferiu não se despedir formalmente. Saiu de cena tocando "Lagoa da Canoa" e dizendo que em breve retornaria à capital.
O bruxo passou pela cidade, mas sua magia ficou.

E SE A BOSSA FOSSE GAÚCHA?

Texto assumidamente alucinado e bairrista. Sempre me perguntei como seria se a Bossa Nova tivesse nascido no Rio Grande ao invés do Rio de Janeiro. Na realidade, nunca encontrei respostas e sim muitas suposições.
Imaginem se misturássemos a bossa com uma milonga ou com um Chamamé, por exemplo. Já tentei imaginar o João Gilberto cantando “Chega de saudade” com uma gaita ponto ao fundo. E se o poetinha Vinícius, pai de muitos versos, começasse a declamar ou contar causos de galpão ao lado de Simões Lopes Neto. Confesso que várias imagens um tanto quanto inusitadas já povoaram meus pensamentos.
Pois dias atrás fiquei surpreso quando, ao revirar meu baú de antiguidades, encontrei um recorte de jornal datado do ano de 1997, falando sobre uma recém lançada biografia do maestro Antônio Carlos Jobim, escrita pelo jornalista Sérgio Cabral. Admirei-me quando vi uma nota ao lado dizendo que o pai de Tom Jobim era gaúcho de São Gabriel. “E não é que o Tom tem um lado gaúcho”!
O escritor e diplomata Jorge de Oliveira Jobim. Amigo de intelectuais como Sérgio Buarque de Hollanda, Augusto Meyer e Érico Veríssimo, organizou quatro coletâneas de literatura brasileira e publicou dois livros (um de prosas e outro de poesias). Casou-se com Nilza Brasileiro de Almeida no Rio de Janeiro em 1926, viu o filho Antônio nascer, mas logo depois de Tom completar um ano, separou-se de Nilza e voltou para São Gabriel.
Uma tentativa de reconciliação, três anos depois, resultou no nascimento de mais uma criança, Helena. Mas novamente o casamento não durou. Jorge faleceu em 1935, aos 46 anos em Petrópolis no Estado do Rio de Janeiro.
Depois de ler a reportagem logo voltei aos meus devaneios: E se Tom Jobim tivesse nascido no Rio Grande do Sul, como seria hoje a história da música brasileira? Se, ao invés de paisagens praianas como Ipanema e Copacabana, Tom se inspirasse em campos e coxilhas coberto de geada? Se a Bossa Nova já é melancólica mesmo com o sol carioca o que seria dela com os nossos dias tão frios?
É claro que décadas depois do seu surgimento, este movimento musical está totalmente atual e ativo. Tanto que “Garota de Ipanema” ainda é uma das músicas mais conhecidas e executadas no mundo. Mas essa idéia de “Bossa Gaúcha” não me sai da memória. Creio que estejamos necessitando de algo novo. Um novo movimento. Misturando ritmos, instrumentos e novas idéias. A Bossa foi revolucionária nos anos cinqüenta, porque não podemos fazer uma nova revolução nos dias de hoje?
Tudo bem que já “exportamos” para o mundo talentos genuinamente gaúchos como Lupicínio Rodrigues, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Kleiton & Kledir, Adriana Calcanhotto, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós. Precisamos nos renovar. Temos músicos maravilhosos e competentes como o Yamandú Costa, o Vitor Ramil, o Antônio Villeroy. Bandas excelentes como Ultramen e Papas da Língua. O Rio Grande do Sul é celeiro de artistas, mas infelizmente ainda não tem o seu devido reconhecimento.
Se Antonio Carlos Jobim fosse gaúcho, talvez a história da música tivesse sido diferente, tomado outro rumo. Mas ainda bem que Tom nasceu brasileiro, acima de tudo.

LUGARES POR ONDE ANDEI: SÃO PAULO

Como bom sagitariano gosto muito de viajar. Por onde eu passo tento reunir o maior número de informações possíveis. Sou fascinado por história. Leio tudo sobre os locais por onde passo.
Como já fui há várias cidades (principalmente no interior do Rio Grande do Sul) acabei criando um diário imaginário sobre as pessoas, os costumes e os lugares por onde andei. Tenho uma boa memória e isso me proporciona escrever, relatar tudo quando chego em casa.
Chamarei de "LUGARES POR ONDE ANDEI" todos os posts sobre viagens e andanças feitas por mim pelo interior desse estado tão rico e maravilhoso que é o Rio Grande do Sul.
Iniciarei a série com uma quebra de protocolo. Falarei de "São Paulo", uma cidade sem precedentes. Só indo até lá para entender tamanha magnitude. Por isso São Paulo é a maior cidade do Brasil.

SÃO PAULO - Fui três vezes a Sampa. Nessas três passagens pela maior cidade do país, não pude conhecer nem 10% das coisas que lá existem. Mas falar em Sampa sem citar a Cínthia e o Diogo (Cici & Didi) seria uma tremenda gafe.
Cici e Didi são namorados. Meus grandes amigos paulistas. Toda vez que vou até lá organizamos um passeio cultural e turístico. Eles são paulistas, mas não conhecem nem a metade da cidade (he he he). Quem os leva sou eu. O "Gaúcho mais paulista do Brasil", é assim que eles me chamam. Certa vez a Cici falou que eu conheço mais São Paulo do que eles (ela é modesta)...

O primeiro lugar que quis conhecer foi a Avenida Paulista. Com seus imensos arranha-céus, a Paulista é grandiosa. O MASP (Museu de Arte de São Paulo) está localizado nela. Lá eu fui conferir a exposição sobre o naturalista Charles Darwin, e o pintor Goya. O MASP possui o maior vão livre do mundo (ou da América Latina, não lembro) onde são apresentadas exposições, peças de teatro, etc. Em frente ao MASP fica uma linda praça chamada Trianon.

Conheci o bairro "Vila Madalena" onde se concentra uma série de barzinhos, onde os paulistanos costumam fazer seus "happy hour". A Vila Madalena me lembrou muito o bairro Cidade baixa em Porto Alegre (só que três vezes maior).

O famoso "Bar Brahma" que nos anos 70 obteve seu auge continua com um charme encantador. Localizado na esquina da Ipiranga com a São João ("Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João - Sampa/Caetano Veloso), o bar fica lotado para assistir o Cauby Peixoto nas terças.

O edifício Copan, localizado no centro da cidade também tem o seu destaque. Desenhado em forma de "S" pelo genial arquiteto Oscar Niemayer, o prédio encanta que aos que passam. Pena que não conseguimos subir ao terraço. Como era noite e o prédio é residencial, a vigilância não autorizou a subida. Mas valeu a tentativa.

O edifício Itália é magistral. Ele também fica no centro e em seu terraço existe um restaurante panorâmico. Subimos lá, mas para nossa surpresa para adentrar ao recinto (terraço/restaurante) tinhamos que desembolsar R$ 50,00 cada um. Fingimos aceitar. Entramos, tiramos umas fotos da cidade e saimos de fininho...

O pátio do colégio é muito bonito. No prédio (Mosteiro de São Bento) ficou hospedado o Papa Bento XVI quando esteve no Brasil. Visitamos também o Theatro Municipal, a Praça e igreja da Sé, o minhocão, a rua Augusta, a Faria Lima.

Outro local que indico é o tradicional bairro italiano do Bixiga. Lá existem muitas "cantinas" (trattorias para os gaúchos) onde servem todos os tipos de comida italiana. Indico o "Rondelli ao quadrifoglio", simplesmente espetacular!

Muitos lugares ainda irei conhecer em São Paulo e certamente relatarei aqui. Agradeço imensamente os meus amigos Cínthia e Diogo que sempre me proporcionam passeios muito interessantes. Até a próxima amigos!

CORAL PROCERGS: AMADURECIMENTO MUSICAL

Fazer parte do coro da PROCERGS foi indubtavelmente um salto na minha percepção e gosto musical. Foi um aprendizado muito grande. Quando digo "foi", não quer dizer que eu não faça mais parte, é que meu trabalho toma o tempo no qual eu poderia estar ensaiando. Hoje eu não consigo freqüentar os ensaios, as apresentações e os grandes retiros. Estou devendo, eu sei, mas no momento que sobrar uma brecha na minha agenda apertada, estarei junto com meus queridos amigos e colegas de coral.
Como eu ia dizendo, o coro me proporcionou momentos muito agradáveis e felizes. Ingressei na carreira coralística no ano 2000 através de uma colega de trabalho, a Adriana. Lá conheci muita gente simples, de diversas faixas etárias e com uma vontade imensa de cantar.
Quando cheguei, a única bagagem musical que eu tinha era da banda Incógnita. Não tinha nada a ver com canto coral. Por isso tive que aprender tudo do zero. Ler partituras (que é difícil pra caramba!), fazer aquecimento e técnica vocal, estudar a teoria e a prática musical. Cada canção leva um tempo para amadurecer. Se for em outro idioma o serviço é em dobro, pois nós temos que entender o que estamos transmitindo aos outros.
Meu ouvido ficou muito mais aguçado. Minha voz ficou mais firme. Virei barítono (voz masculina entre o grave e o agudo), logo passei a cantar como tenor (voz aguda masculina). Cantei de tudo um pouco (Músicas sacras, MPB, regionais, clássicas, natalinas...) e em vários idiomas (português, espanhol, inglês, italiano, alemão, latim). Me apresentei em vários lugares. Conheci muitas cidades do Rio Grande do Sul. O coro viajou para lugares mais distantes como o Centro-oeste (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e para fora do Brasil (Argentina).
Tudo que vivi no coral foi de grande valia para minha vida. A técnica vocal é uma terapia, pois eu chegava aos ensaios depois do trabalho extremamente cansado e saia de lá totalmente revitalizado.
Recomendo o canto como tratamento para a vida. Experimentem, vocês verão que dará resultados!

REQUIEM PARTE III - PUC

Acordei cambaleando às 8 hs da manhã direto para o banheiro (é que eu precisava fazer xixi!). Voltei para a cama e só levantei ao meio-dia. Almocei tranqüilamente e às 13:30 hs peguei o T4 direto para a PUC.
Ao chegar já pude perceber e ouvir gargalhadas que vinham de uma sala. Era, obviamente, o coro mais alegre do Brasil, o Coral da Procergs. Entrando no camarim que nos fora reservado, tive uma alegre surpresa ao ver a Adriana. Para quem não sabe, foi ela que me levou para fazer o teste na Procergs, ou seja, ela me pôs no mal caminho! Estava acompanhada de sua filha Giovana (aquela menininha que tocou a “flautinha” nas missões), que hoje está uma enorme mulher. A Adri registrou a apresentação em VHS.
Não deixamos de lembrar da palavra-chave da noite anterior: “MORS”. Na parte final de “Tuba Mirum”(do “Dies Irae”) o baixo solista, José Gallisa, entoa a palavra “MORS” (que quer dizer “morte” em latim) três vezes. Uma mais grotesca que a outra, como se realmente estivesse morrendo. Foi um momento marcante, talvez por isso tenha chamado a atenção de todos (fizemos até aquecimento com o “Mors”. Que horror!).
Ainda sobre os solistas, não poderia deixar de elogiar e citar aqui neste humilde texto o tenor Marcello Vannucci, a soprano Adriana de Almeida (mais tarde fiquei sabendo que ela é esposa do “Papa Gerling”. O Maestro tá com tudo!) e a mezzo soprano Regina Elena Mesquita (além do baixo “Zé”, já citado).
Nos posicionamos atrás do palco, nos demos as mãos e refizemos a oração do dia anterior. Fomos até o palco e ficamos exatamente nos lugares onde ensaiamos (Ufa! Desta vez não rolou “stress” com a tiazinha...). O salão de Atos não estava totalmente lotado, mas 70% dos lugares foram ocupados. O Maetro “papa Gerling” fez um sinal e a orquestra iniciou o “Requiem e Kyrie”.
Logo o momento (para mim) mais excitante e empolgante da noite “Dies Irae”. Ele fala no dia da ira, portanto é impactante a forma com que são tocados os instrumentos (principalmente o tímpano (o enorme tambor)). Neste momento tínhamos a impressão que o teatro desabaria sobre nossas cabeças. Foi forte mesmo!
Depois vieram “o “Tuba Mirum”, “Liber Scriptus”, “Quid Sum Miser” e o “Rex Tremendae” (em todos estes somos acompanhados pelos solistas). Logo chega a calmaria. O momento dos solos, ou seja, 20 minutos que ficamos parados sem poder sentar ou sequer tomar água.
As solistas (soprano e mezzo) fizeram o “Recordare”. O tenor cantou o “Ingemisco” e o baixo fechou com “Confutatis”. Eu, o Edemar, o Duda, o Léo e o Manuel nos esforçamos para não rir. Só lembro que quando chegou a hora do “MORS”. Coloquei a partitura no rosto para não enxergar ninguém. O Léo me disse depois que não podia olhar nenhum minuto para mim, pois tinha a certeza de que eu estaria rindo. Ah! Já ia me esquecendo. O Edemar tirou o sapato (É, ele coseguiu!). E o “Lênin” que estava em nossa frente deve ter sentido algum cheiro estranho e começou a olhar prá baixo, examinando pé por pé. O Edemar escondeu o sapato embaixo da batina preta e me perguntou baixinho: -“ Será que ele sentiu algum cheiro?” Não me contive. Usei a tática da partitura novamente e tapei minha cara.
Afora os imprevistos, depois do “Confutatis” voltamos a cantar “Lacrymosa” com todos os solistas. Na hora do “Offertorio”, mais alguns minutos parados. Só os solistas em ação. Voltamos com “Sanctus” (que é bábaro!) e passamos para “Agnus dei” com as solistas (soprano e mezzo).
Depois foi a vez de “Lux Aeterna” (com solistas: mezzo, tenor e baixo) e finalmente nos encaminhamos para o final triunfante. Sem pestanejar digo que o grande desafio foi o final, o famoso “Libera Me”. Saiu bem, por incrível que pareça! (diferente da noite anterior!). Terminava ali mais uma memorável apresentação. Foram meses de estudos e ensaios (às vezes até bem desgastantes). Um projeto que envolveu centenas de pessoas (cantores, instrumentistas, técnicos, organizadores...). Os aplausos ecoaram pelo Salão de Atos da PUC como uma benção divina. Deixamos o palco e fomos para o camarim festejar.
Fizemos um círculo onde dançamos e cantamos (ainda fantasiados de padres medievais). As meninas colocaram o babador branco na cabeça e cantaram “Lacrymosa” (parecia uma greve de empregadas domésticas). Fim de festa. Peguei carona com o Léo e a Loren e fui pra casinha (afinal, até Deus descansou no sétimo dia!).
E que Verdi também descanse em paz... “Requiem aeternam dona eis. Domine et lux perpetua luceat eis”. Amen PS – Afinal, era para devolver as partituras? Se era, só lamento. A minha eu não devolvo nem que a vaca tussa!

REQUIEM PARTE II - CATEDRAL

Era sábado. Dia 23 de Outubro de 2004. Excepcionalmente tive que trabalhar das 7:00 hs da manhã às 16:00 hs. Peguei carona (de Alvorada para Porto) até a casa da Mamma e da Dinda. No rádio o locutor narrava o primeiro gol do Grenal (e foi do Inter!). Ao descer do carro molhei-me um pouco com a chuva fina que caia naquela tarde. Pensava então: - “Será que com essa chuva o povo irá assistir a apresentação ou ficará em casa dormindo”?
Mamma, Dinda e eu jogamos um pouco de conversa fora (já que tínhamos de estar na Catedral somente às 18:30 hs). Aproveitei para tomar banho e trocar de roupa. Foi quando num intervalo de poucos minutos o Inter fazia mais dois gols (minha tarde estava alegre!). Pouco tempo depois, meu time ganhava o clássico por 3x1.
Chegamos na Catedral Metropolitana na hora marcada. Entramos pela Cúria, na rua Espírito Santo. Num enorme salão (que lembrava aqueles enormes castelos medievais) os coros se organizavam separadamente. Coloquei minha batina preta de microfibra (fiquei igual àqueles padres da época da inquisição...). Aquecemos e só pra variar cantamos pianissimamente “Glória da missa afro brasileira” sob o olhar atento de alguns componentes dos outros coros. Foi então que começou a tensão. Uma moça que aparentava um alto nível de stress tentou organizar as filas em ordem para a entrada no altar. Ela tentava. Ajeitava. Mas minutos depois desfazia tudo e recomeçava de novo:
- “Nesta fila tinha que ter cinco tenores, por que só tem três?”. E eu vou saber tiazinha...
Fizemos uma oração e iniciamos a trajetória rumo a batalha. Como estávamos em um nível abaixo da igreja (a Catedral fica no declive entre as ruas Duque de Caxias e Fernando Machado) tivemos que subir alguns lances de escada até o corredor que dava direto ao lado do altar. Parece fácil, mas imagine organizar um coral de 150 vozes e uma orquestra com mais de sessenta componentes!
Ao adentrarmos no recinto tamanha foi minha surpresa ao ver a Catedral Metropolitana totalmente lotada. A comunidade parecia estar bastante interessada em assistir a famosa missa em latim. Outra surpresa, para quem estava na última fila do tablado de madeira montado no altar, foi que estávamos literalmente em um “penhasco”. Não havia proteção alguma para quem estava no fundão. Se déssemos dois passos para trás certamente o estrago seria grandioso. Mas graças a Deus, não tivemos nenhuma catástrofe. Somente um susto, pois uma moça passou mal e sentou no tablado. A nossa “Lacraia” Genessi tratou de abaná-la com a partitura enquanto os solistas faziam suas exibições.
Como diz a música da Wanderléia: “Essa é uma prova de fogo...”, indubitavelmente cantar o “Requiem” foi uma prova de fogo, pois ficar em pé durante uma hora e meia não foi fácil (quando cheguei em casa coloquei os pés para cima!). Ainda mais naquela arquibancada que não parava de ranger. Foi um suplício. Uma verdadeira “Torre de Babel”. Agora imaginem se aquilo desmorona...
A apresentação chegava ao fim. Iniciávamos o “Libera me” loucos para sermos “liberados” de uma vez. Eu estava contando as últimas páginas da partitura. Quando acabou, a platéia ovacionou-nos com mais de um minuto de fervorosos aplausos (aplaudidos de pé em plena Catedral... Que beleza!). Mas a noite não acabou aí. Eu fui para uma festa de aniversário de um amigo e só consegui dormir lá pelas 3 hs da manhã (podre de cansado!). Tinha que descansar, pois no domingo faríamos tudo outra vez...