sábado, 12 de setembro de 2009

E SE A BOSSA FOSSE GAÚCHA?

Texto assumidamente alucinado e bairrista. Sempre me perguntei como seria se a Bossa Nova tivesse nascido no Rio Grande ao invés do Rio de Janeiro. Na realidade, nunca encontrei respostas e sim muitas suposições.
Imaginem se misturássemos a bossa com uma milonga ou com um Chamamé, por exemplo. Já tentei imaginar o João Gilberto cantando “Chega de saudade” com uma gaita ponto ao fundo. E se o poetinha Vinícius, pai de muitos versos, começasse a declamar ou contar causos de galpão ao lado de Simões Lopes Neto. Confesso que várias imagens um tanto quanto inusitadas já povoaram meus pensamentos.
Pois dias atrás fiquei surpreso quando, ao revirar meu baú de antiguidades, encontrei um recorte de jornal datado do ano de 1997, falando sobre uma recém lançada biografia do maestro Antônio Carlos Jobim, escrita pelo jornalista Sérgio Cabral. Admirei-me quando vi uma nota ao lado dizendo que o pai de Tom Jobim era gaúcho de São Gabriel. “E não é que o Tom tem um lado gaúcho”!
O escritor e diplomata Jorge de Oliveira Jobim. Amigo de intelectuais como Sérgio Buarque de Hollanda, Augusto Meyer e Érico Veríssimo, organizou quatro coletâneas de literatura brasileira e publicou dois livros (um de prosas e outro de poesias). Casou-se com Nilza Brasileiro de Almeida no Rio de Janeiro em 1926, viu o filho Antônio nascer, mas logo depois de Tom completar um ano, separou-se de Nilza e voltou para São Gabriel.
Uma tentativa de reconciliação, três anos depois, resultou no nascimento de mais uma criança, Helena. Mas novamente o casamento não durou. Jorge faleceu em 1935, aos 46 anos em Petrópolis no Estado do Rio de Janeiro.
Depois de ler a reportagem logo voltei aos meus devaneios: E se Tom Jobim tivesse nascido no Rio Grande do Sul, como seria hoje a história da música brasileira? Se, ao invés de paisagens praianas como Ipanema e Copacabana, Tom se inspirasse em campos e coxilhas coberto de geada? Se a Bossa Nova já é melancólica mesmo com o sol carioca o que seria dela com os nossos dias tão frios?
É claro que décadas depois do seu surgimento, este movimento musical está totalmente atual e ativo. Tanto que “Garota de Ipanema” ainda é uma das músicas mais conhecidas e executadas no mundo. Mas essa idéia de “Bossa Gaúcha” não me sai da memória. Creio que estejamos necessitando de algo novo. Um novo movimento. Misturando ritmos, instrumentos e novas idéias. A Bossa foi revolucionária nos anos cinqüenta, porque não podemos fazer uma nova revolução nos dias de hoje?
Tudo bem que já “exportamos” para o mundo talentos genuinamente gaúchos como Lupicínio Rodrigues, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Kleiton & Kledir, Adriana Calcanhotto, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós. Precisamos nos renovar. Temos músicos maravilhosos e competentes como o Yamandú Costa, o Vitor Ramil, o Antônio Villeroy. Bandas excelentes como Ultramen e Papas da Língua. O Rio Grande do Sul é celeiro de artistas, mas infelizmente ainda não tem o seu devido reconhecimento.
Se Antonio Carlos Jobim fosse gaúcho, talvez a história da música tivesse sido diferente, tomado outro rumo. Mas ainda bem que Tom nasceu brasileiro, acima de tudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário