Era sábado. Dia 23 de Outubro de 2004. Excepcionalmente tive que trabalhar das 7:00 hs da manhã às 16:00 hs. Peguei carona (de Alvorada para Porto) até a casa da Mamma e da Dinda. No rádio o locutor narrava o primeiro gol do Grenal (e foi do Inter!). Ao descer do carro molhei-me um pouco com a chuva fina que caia naquela tarde. Pensava então: - “Será que com essa chuva o povo irá assistir a apresentação ou ficará em casa dormindo”?
Mamma, Dinda e eu jogamos um pouco de conversa fora (já que tínhamos de estar na Catedral somente às 18:30 hs). Aproveitei para tomar banho e trocar de roupa. Foi quando num intervalo de poucos minutos o Inter fazia mais dois gols (minha tarde estava alegre!). Pouco tempo depois, meu time ganhava o clássico por 3x1.
Chegamos na Catedral Metropolitana na hora marcada. Entramos pela Cúria, na rua Espírito Santo. Num enorme salão (que lembrava aqueles enormes castelos medievais) os coros se organizavam separadamente. Coloquei minha batina preta de microfibra (fiquei igual àqueles padres da época da inquisição...). Aquecemos e só pra variar cantamos pianissimamente “Glória da missa afro brasileira” sob o olhar atento de alguns componentes dos outros coros. Foi então que começou a tensão. Uma moça que aparentava um alto nível de stress tentou organizar as filas em ordem para a entrada no altar. Ela tentava. Ajeitava. Mas minutos depois desfazia tudo e recomeçava de novo:
- “Nesta fila tinha que ter cinco tenores, por que só tem três?”. E eu vou saber tiazinha...
Fizemos uma oração e iniciamos a trajetória rumo a batalha. Como estávamos em um nível abaixo da igreja (a Catedral fica no declive entre as ruas Duque de Caxias e Fernando Machado) tivemos que subir alguns lances de escada até o corredor que dava direto ao lado do altar. Parece fácil, mas imagine organizar um coral de 150 vozes e uma orquestra com mais de sessenta componentes!
Ao adentrarmos no recinto tamanha foi minha surpresa ao ver a Catedral Metropolitana totalmente lotada. A comunidade parecia estar bastante interessada em assistir a famosa missa em latim. Outra surpresa, para quem estava na última fila do tablado de madeira montado no altar, foi que estávamos literalmente em um “penhasco”. Não havia proteção alguma para quem estava no fundão. Se déssemos dois passos para trás certamente o estrago seria grandioso. Mas graças a Deus, não tivemos nenhuma catástrofe. Somente um susto, pois uma moça passou mal e sentou no tablado. A nossa “Lacraia” Genessi tratou de abaná-la com a partitura enquanto os solistas faziam suas exibições.
Como diz a música da Wanderléia: “Essa é uma prova de fogo...”, indubitavelmente cantar o “Requiem” foi uma prova de fogo, pois ficar em pé durante uma hora e meia não foi fácil (quando cheguei em casa coloquei os pés para cima!). Ainda mais naquela arquibancada que não parava de ranger. Foi um suplício. Uma verdadeira “Torre de Babel”. Agora imaginem se aquilo desmorona...
A apresentação chegava ao fim. Iniciávamos o “Libera me” loucos para sermos “liberados” de uma vez. Eu estava contando as últimas páginas da partitura. Quando acabou, a platéia ovacionou-nos com mais de um minuto de fervorosos aplausos (aplaudidos de pé em plena Catedral... Que beleza!). Mas a noite não acabou aí. Eu fui para uma festa de aniversário de um amigo e só consegui dormir lá pelas 3 hs da manhã (podre de cansado!). Tinha que descansar, pois no domingo faríamos tudo outra vez...
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