sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O retorno de Jedi!

É meu povo... Depois de dois anos de afastamento por motivos de força maior (Curso de Gestão da Qualidade), estou retornando a minha segunda casa, o Coral Procergs.
Chega um momento na vida em que sentimos falta de algo que nos complete. E o que me completa é cantar!
Notei que eu andava muito nervoso, estressado, sem paciência... E a técnica vocal, a música me ajuda muitíssimo. É o meu tratamento contra o mau-humor.
Tem gente que joga futebol, que faz academia... ou seja, encontra refúgio em outras atividades. Eu canto! Nada melhor do que rever as pessoas, jogar conversa fora, falar do cotidiano e principalmente da cena musical.
Revi muitos amigos no ensaio e senti muita falta de alguns que já não estão mais conosco.
Estou muito feliz.
Agora é correr atrás do repertório!

sábado, 12 de setembro de 2009

LEANDRO BRAGA & DONA IVONE LARA





















No dia 12 de fevereiro de 2004, no auge do verão, um calorão infernal fomos assistir (Meu amigo Leonardo Assis Nunes e eu) ao show de Leandro Braga & Dona Ivone Lara no Salão de Atos da UFRGS (Nesta foto, na primeira fila, lá estamos eu e o Léo).

Era o projeto Unimúsica 2004 - Série piano e voz

Foi um belo show!
Abaixo o texto escrito pelo genial Zuza Homem de Mello:

por Zuza Homem de Mello

A ligação entre a compositora e cantora Dona Ivone Lara (1922 - ) e o pianista e arranjador Leandro Braga (1942 - ) se consolidou em 2002 com a gravação do CD A música de Dona Ivone Lara, que mostrou a exuberância de suas composições, algumas delas sobejamente conhecidas no mundo do samba, outras nem tanto, mas cada qual oferecendo um campo para as fascinantes explorações que Leandro teve a seu dispor.

Assim armado, Leandro “deitou e rolou”, ao exercer sua criatividade com a delicadeza e a competência que já se conhecia, atingindo com esse soberbo disco sobre a obra da compositora o que pode ser visto como um casamento olímpico, destinado a alcançar bodas de pedras preciosas e metais nobres à medida que passem os anos. Esse enlace de primeira grandeza na música brasileira é o programa desta noite no Projeto Unimúsica – série piano e voz da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A facilidade com que a internacional Dona Ivone Lara cria melodias pôde ser medida desde o início do partido alto Tié Tié, uma das primeiras que compôs, antes de se tornar componente da ala da Escola Império Serrano, depois de pertencer à extinta Prazer da Serrinha. Nos anos 70 é que suas composições começaram a despontar, atingindo popularidade nacional em 1978 com a gravação de Sonho meu (por Maria Bethânia e Gal Costa) em parceira com Delcio Carvalho, ainda que no ano anterior a dupla já tivesse alcançado sucesso com Liberdade. Daí em diante foi um verdadeiro desfile de sambas com sua marca de melodias de primeira grandeza, Alguém me avisou, Acreditar, Nasci para cantar e sonhar, Mas quem disse que eu te esqueço e outros mais. Dona Ivone tornou-se uma dama, uma majestosa dama do samba, uma querida senhora que sabe guiar a música pelos mais lindos caminhos.

O paulista de São José dos Campos Leandro Braga, um dos mais requisitados e bem vistos arranjadores brasileiros, se consagrou de vez como pianista no seu segundo disco próprio, Pé na cozinha, de 1998, ganhando o prêmio Sharp do ano. Participou com sucesso do Free Jazz Festival no ano seguinte e prosseguiu numa trajetória repleta de triunfos em todas as incursões: escreveu trilhas para cinema e arranjos para peças musicais e inúmeros discos, foi diretor muscial de Ney Matogrosso e prossegue numa das mais brilhantes carreiras nessa área em que poucos são de fato reconhecidos. Quando deixa a caneta de lado, Leandro braga simplesmente estraçalha o piano; isto quer dizer em gíria musical arrebenta; e isto que dizer, ainda em gíria musical, deixa o ouvinte boquiaberto e sem fôlego.

Enquanto Dona Ivone Lara é formada em enfermagem (tendo exercido a profissão enquanto as atividades artísticas permitiam), Leandro é formado em medicina. Ambos teriam portanto uma vasta área de ação em comum fora da música. Mas é nela que ambos se encontram com o encantamento da arte, brindando a vocês com os sons que vão ouvir hoje.

Há música no ar.

OS CAINGANGUES

Vindo de Frederico Westphalen, paramos em Palmeira das Missões para fazer uma troca de ônibus. Uma “baldiação”. Prática muito comum em cidades do interior e até mesmo na zona rural de Porto Alegre. Todo esse processo duraria trinta minutos. Tempo necessário para ir ao banheiro e fazer um lanche. Sai do velho ônibus, quase caindo aos pedaços e fui procurar o toillete na rodoviária de Palmeira. Olhei para um lado, olhei para o outro e me transportei para o velho oeste. Sábado pela manhã, e a cidade vazia. Parecia uma cidade fantasma. Veio em minha mente a canção “The good, the bad, the ugly”. Isso mesmo! Aquela canção famosa que lembra o faroeste. Fui até a única lanchonete da rodoviária e comprei algo para comer. Peguei alguma coisa para levar, pois a viagem até Porto Alegre seria bem longa. Sentei num antigo banco de madeira que lembrava os assentos de um trem e comi um sanduíche. Havia uma caixa de som rouca que transmitia um evento (acho que era uma missa). Aquilo soava baixinho, mas ao mesmo tempo atordoante. Na rodoviária, havia no máximo umas dez pessoas (todas esperando o mesmo ônibus pinga-pinga para a capital). Surge então um vendedor de chapéus. Peças realmente bonitas feitas de palha seca e outras de vime. O rapaz me ofereceu. Recusei. Não uso nem boné, o que dizer de chapéu. Então apareceu uma menininha. Uma indiazinha de mais ou menos quatro anos. Uma belezinha. Lembrei da Carol. Minha filha que sofre com minhas ausências temporárias, mas está sempre me esperando com aquele lindo sorriso. A pequena índia nem falava direito. Tanto pela idade quanto pela situação precária em que vivia. Notava-se que ela vivia marginalizada naquela cidade. Mas pobre menininha, tão novinha e jogada pelos cantos. Ela tentou falar algo, mas confesso que não entendi nada. Era uma espécie de dialeto indígena. Mais tarde, pesquisando na Internet, descobri que os índios que vivem naquela região são caingangues. A indiazinha estava com fome, pois apontou para o meu sanduíche. Entendi o recado e com um sentimento descomunal, entreguei o lanche a ela. Essa menina o devorou com tamanha voracidade, que tive medo que ela se engasgasse. Um momento triste, e que é comum em todo o país. Abri a mochila e peguei um pacote de biscoitos. Dei a menininha e ela saiu correndo, sumindo no horizonte. Um pouco mais aliviado, arrumei minhas coisas, pois o ônibus estava para chegar. Ouvi um burburinho e olhei para o lado. Uma legião de índios de todas as idades vinha em minha direção. Umas seis pessoas. E na frente do povo vinha a indiazinha. Claro, dei comida a ela e ela chamou a família para comer também! Minha nossa... Os índios chegaram perto e disseram que queriam comida, roupas, dinheiro. Estavam determinados naquilo. E eu desesperado, sem saber o que fazer desviava das pessoas e tentava fugir. Foi quando o ônibus apareceu e eu pulei pra dentro sem dó. Espiei pela janela e a tribo já tentava garantir comida com outras pessoas que chegaram na rodoviária. Que pesadelo! Deitei o banco, respirei fundo e adormeci. Sonhei com índios. Por que será?

PEDRA DO SEGREDO

Era final da manhã de um dia muito quente. Estávamos entre o dilema: “Vamos almoçar ou vamos até a Pedra do Segredo”. É claro que escolhemos a segunda opção. Estar em Caçapava do Sul e não ir até a Pedra do Segredo seria uma tremenda estupidez. Abdicamos de um almoço de beira de estrada para adentrar aquela estradinha de chão batido. Uma estradinha sem fim. Na esquina havia um botequinho onde estava um grupo de seletos senhores interioranos, saboreando uma cachaça de butiá. “É essa estrada que leva a Pedra do Segredo?” Perguntei. “É sim, mas é bom preparar as pernas, pois é um longo caminho”, me respondeu um dos senhores. Ao lado do bar, havia uma velha caminhoneta e em seu interior um rapaz de uns vinte e poucos anos que disse: “Eu levo vocês na pedra por quinze reais”. Topamos na hora. Ainda bem que topamos, pois a estradinha tinha mais de cinco quilômetros. O rapaz chamava-se Felisberto. Vivia de fretes e era especialista no assunto “Pedra do Segredo”. Morava no início da estrada e conhecia muito bem o trajeto. Já no início da “aventura”, Felisberto começou a contar histórias da tal gruta: “A pedra do segredo é amaldiçoada. Os jesuítas esconderam um tesouro lá. A gente não consegue entrar com velas lá dentro das grutas. As velas se apagam. Parece que não querem que a gente descubra o que tem lá dentro”. Logo nos aproximamos do local. Confesso que quando ficamos frente-a-frente com aquelas rochas, tremi as pernas. Eram duas pedras enormes com um formato inusitado. Pareciam duas cabeças de gorilas lado-a-lado. O lugar é muito misterioso. A energia é muito forte. Pelo pouco tempo que tínhamos, não pudemos entrar nas cavernas. Ficamos só admirando tal maravilha vista de fora. O Felisberto disse que existem três cavernas lá. A caverna da escuridão, O salão das estalactites e a caverna Percival Antunes. Perguntei quem fora Percival Antunes. Felisberto não soube me dizer, mas provavelmente tenha sido o descobridor do local. Depois de 30 minutos de contemplação, precisávamos retornar. Tínhamos que pegar a estrada rumo a Porto Alegre. Ai aconteceu o inusitado: a caminhoneta não pegava. Felisberto tentou várias vezes, mas a bateria morreu. Nesse instante começou a ventar muito no local. Olhamos para o alto e o céu escurecido denunciava um princípio de temporal. Um dia quente de final de primavera com um vento de outono. No mínimo estranho. Preocupei-me, pois a estrada era de chão batido e não havia nada ao redor. Segundo o nosso guia, ela terminava ali. Não havia nada adiante. Portanto tínhamos que retornar os cinco quilômetros que percorremos. O cenário era propício de um filme de suspense. Pessoas perdidas na mata rodeadas de montanhas gigantescas com formas assustadoras. Deu medo sim. Mas foi tudo muito rápido, graças a Deus. Num momento de “sorte”, Felisberto virou a chave a o motor voltou a funcionar. Na mesma hora entramos no veículo e seguimos em frente. Foi uma sensação bastante intrigante e desconfortável. Logo avistamos o botequinho da esquina. Pagamos o valor da corrida a Felisberto e para nossa surpresa, ao olharmos para o céu, ele estava limpinho. O verdadeiro “Céu de brigadeiro”. Felisberto perguntou a um dos senhores do bar: “E o temporal que estava vindo?”. O Velho senhor apenas disse: “Temporal? Este céu nunca esteve tão azul”. E voltou a saborear sua cachacinha de butiá. Fomos embora, sem nada entender. Mas podemos perceber que a Pedra do Segredo tem seus mistérios. Acredite se quiser!

FANTASMAS EM TRÊS PASSOS

Certa noite, estávamos chegando à cidade de Três Passos. Era por volta de 21:00h. Havíamos saído de Frederico Westphalen totalmente atrasados e precisávamos entregar um material em Três Passos naquele mesmo dia. Liguei para o responsável e ele autorizou a deixar com o vigilante noturno. A localidade se chamava Padre Roque Gonzalez, e a rua era Coroinha s/n°. Foi umadificuldade encontrar, ainda mais à noite, na penumbra do rancho posteiro. Paramos em um posto de gasolina e perguntamos. Era a cinco minutos dali. Quando dobramos à direita e adentramos na tal localidade, nos deparamos com uma cena muito estranha e medonha no morrinho ao lado da estrada de chão: Uma imensa claridade mostrava a figura de um homem e uma criança. Eram totalmente brancos. O motorista que estava comigo resmungou algo como: “Jesus, Maria, José, olha lá uma assombração”! Eu gelei na hora. Era impressionante, existia mesmo a figura de um homem e uma criança. Foi rápido e assustador. Desviamos e dobramos na outra rua. Aquilo era surreal. Ao chegarmos no local da entrega e encontrarmos o guarda, dissemos desesperados: -“O senhor nem imagina, acabamos de ver duas assombrações. Um homem e uma criança encima do morro cobertos por uma luz”. O guarda na maior calma perguntou-nos: -“Vocês vieram pela estrada e dobraram na entrada do loteamento”? –“Sim”, respondemos apavorados! Então o guarda soltou uma imensa gargalhada e disse: -“Não! Não são fantasmas não. São as estátuas dos Mártires de Nonoai. À noite eles são iluminados por dois holofotes. Mas não se preocupem, pois isso acontece sempre com os desavisados”. Mais aliviados, pudemos respirar melhor. Então o Seu Francisco (o guarda), ofereceu-nos uma xícara de café e contou-nos a história. “Em meados de 1923, 1924, o Padre Espanhol Manuel González acompanhado do coroinha Adílio Deronch faziam uma evangelização na região de Três Passos. Como havia uma revolução na época, os dois foram capturados, torturados e assassinados brutalmente. Seus corpos foram encontrados amarrados em árvores. Contam os antigos que foi uma cena horrível. Os corpos foram retirados e levados para Nonoai (local de onde vieram). Após o incidente, no local das mortes foi levantado um monumento com as estátuas dos dois em tamanho natural e da forma como foram mortos, ou seja, amarrados nas árvores”. Após o cafezinho e a prosa, nos despedimos e seguimos a estrada, pois a viagem de retorno a Porto Alegre seria bastante longa. Chegando em casa pude pesquisar um pouco sobre a história dos Mártires de Nonoai e descobrir a quantidade de devotos que os seguiam a muito tempo. Vi também que o caso estava em processo de beatificação no Vaticano, pois existiam histórias de milagres atribuídos aos dois. Essa experiência foi em 2006, e para minha surpresa os Mártires de Nonoai foram beatificados no mês passado (outubro de 2007). Um destino abençoado aos “Fantasmas”, digo “Mártires” de Nonoai. Prestem atenção ao chegarem em Três Passos. Até hoje lembro como foi assustadora aquela cena. Qualquer um vendo às estátuas no alto de um morro a noite, iluminadas por uma luz que vinha não sei de onde, pensaria que estava vendo assombração... Em outra oportunidade, passei por Três Passos durante o dia e não resisti. Parei para fotografar as estátuas...

HARD WORKING BAND




Sessão “Vamos matar a saudade”... Segue mais um texto escrito em 2002 quando fiz um teste para cantar na “Hard Working Band” (Banda de soul music que teve seu auge lá pelos anos de 2000/2001 em Porto Alegre). Segue a íntegra: O CONVITE Era final de agosto de 2002. Estava em casa, sozinho, curtindo meus últimos e merecidos dias de férias. Até que no meio da tarde o telefone toca:
-“Alô, eu poderia falar com o Márcio”?
Era o Duda, ou para quem preferir Eduardo da Rosa Alves, grande amigo e colega tenor coro da Procergs.
Conversamos durante alguns minutos, mas senti que o Duda queria me dizer algo. Até que entramos no assunto “música”. O Duda comentou sobre um show que o “Vocal 5” (grupo musical A capella do qual participa) pretendia fazer com a Andréia Cavalheiro e a Letícia Oliveira da Banda de soul music “Hard Working”: -“Sabe aquele show que eu te falei? Pois é, ele foi cancelado. Parece que houve alguns problemas com a banda. Lamentamos o fato. Éque eu ficava enchendo o saco do Eduardo, perguntando sempre sobre esse show. Queria assisti-lo. O Duda então criou coragem e falou: -“Tenho uma coisa pra te falar. É que os guris (Jonatas Prates e Nelson Ebelt) vão deixar a banda”... (...) Silêncio no ar. Naquele momento fiquei muito triste, pois estava vendo uma de minhas bandas preferidas se dissolver. Os dois vocalistas resolveram pedir licença e se retirar definitivamente. -“Calma! Eu não te contei o resto. Sabe quem foi convidado para fazer teste para entrar como vocal na banda? Eu”. Novamente fiquei perplexo. Até cair a ficha lá se foram 5 segundos. O Duda poderia entrar para a “Hard Working”. Que maravilha. Já fiquei todo orgulhoso. Se fosse chamado estariam fazendo uma escolha e tanto. Fiquei muito feliz. Mas ele interrompeu minha euforia e disparou logo: -“Márcio, eu não aceitei”! Pela terceira vez, me surpreendi. Ele me explicou que não conseguiria se dedicar a mais um compromisso (ele canta oficialmente em três grupos, pelo menos é o que tenho conhecimento). Mas nem todas as bombas foram lançadas: -“As gurias então me pediram para eu indicar alguém, então eu te indiquei”! Por instantes não entendi a situação. Pedi para ele repetir. O Duda havia me indicado a fazer um teste para entrar para a banda. Puxa vida, que presente. Cantar Na minha banda de soul music preferida.
Passou-me o telefone celular da Andréia para eu marcar o teste. Logo depois de desligar, liguei imediatamente para ela. Eu estava muito nervoso. Ela atendeu com sua voz suave. Me identifiquei como amigo do Duda, ai ficou tudo em casa. Ela foi muito gentil e passou as primeiras coordenadas. Pediu para eu passar na produtora e pegar um cd com as músicas do teste e as letras. Eram ao todo quatro temas: Duas em inglês (Soul Man e My Girl) e duas em português (Todo o meu canto e Mandei cancelar). Tive exatamente uma semana para ensaiá-las. Estava tão apreensivo que não consegui dormir direito já no dia da notícia. Bem, a sorte foi lançada. O TESTE Comecei a sofrer com uma semana de antecedência. Na madrugada de terça para quarta (03 para 04 de setembro), não preguei o olho. Trabalhei o dia inteiro com aquele frio na barriga. Confesso que pensei em desistir, mas logo tirei essa idéia da cabeça. Caia à tarde. Eu tive que passar em casa para pegar o CD e as letras. Fiz aquecimento vocal e tomei muita água.
Já na Marcílio Dias, eu respirava fundo. Cheguei ao estúdio Nazari um pouco adiantado. Toquei a campainha. A menina baixinha atendeu: -“Oi! Eu tenho horário marcado com o pessoal da “Hard Working”! -“Ah, claro! Pode entrar. O Carlos já está ai”. Realmente o Carlos Mallmann (trombonista) já esperava olhando pro relógio. Percebi sua pontualidade. -“Oi, tudo bem! Eu sou o Márcio. Vim fazer o teste com vocês”. -“Legal cara, senta ai que o pessoal deve estar chegando. Bah cara, tu é figurinha carimbada nos shows, eu me lembro de ti”. Claro, eu ia a todos os shows da banda. Batemos um papo na ante-sala enquanto a “Black Master” ensaiava no estúdio. O Mallmann contava que os caras (Jonatas e Nélson) estavam saindo da banda na boa.
O pessoal chegava aos poucos. Até que se reuniram a portas fechadas no estúdio. Eu estava bastante apreensivo, andando de um lado para outro. A Letícia veio me chamar; -“Oi! Tu és o Márcio, né? Entra e fica a vontade. Os guris estão terminando de afinar os instrumentos.
Com exceção do Anginho do Trumpete e do Deco Oldmann que chegaram atrasados, a banda estava reunida. Somente os ex-integrantes não compareceram (obviamente). A Andréa pediu para eu testar o microfone:
-“Tá bom? Ta grave demais? Se não tiver bom, dá um toque. Quem comanda este ensaio é você, portanto faça o que quiser”! Antes de começar, falei que tive dificuldades com a tonalidade de Soul Man. Então eles disseram que poderiam abaixar meio tom. Decidi encarar assim mesmo, em mi maior. Começamos com “My Girl”, a minha preferida. Não precisei decorar a letra, pois canto essa canção desde os meus quinze anos, quando aprendi as primeiras noções de violão. E, além disso, sou fã dos “Tempatations”.
A segunda foi “Todo o meu canto” e a terceira “Mandei cancelar”. Por serem letras em português, não tive problemas em cantá-las. Gosto e entendo inglês, porém prefiro cantar em português. Sou filho da “Bossa” com o “Samba”. A quarta e última música foi à temida “Soul man”.
Confesso que foi a pior interpretação. Por ser uma música bastante forte e por eu já estar “grilado” com o tom, o desempenho foi ruim. Cheio de altos e baixos. Todos me olhavam para ver se estava tudo bem. Me deixaram super a vontade. Foram fora de série.
Depois do teste vocal fizeram uma mini entrevista. Primeiro apresentei-me. Dei minha ficha completa. E todos ali, me olhando, me analisando. Uma seriedade desconfortável. E no final do discurso disse que sendo ou não escolhido, o importante foi ter participado e de ter ganhado um “ensaio com minha banda preferida”. Todos riram e disseram que foi um prazer.
Ao findar agradeci a todos pela paciência. Letícia me conduziu até a porta, onde cruzei com o próximo candidato. Era outra figurinha carimbada nos shows da banda, o Maurício.
Maurício foi o escolhido, com todo o mérito, pois cantava e interpretava com a alma. Mas a permanência dele durou apenas um ano, pois a banda resolveu acabar de vez, lamentavelmente. Cada um seguiu seu caminho. Andréia faz jingles publicitários, faz backing vocals esporádicos para a Ultramen e tem uma Banda chamada “Dea’s Gang”.
Já a Letícia foi morar em São Paulo. Participou do programa do Raul Gil como caloura e ainda foi integrante do programa “Fama” da Globo. O restante do pessoal foi seguindo caminhos diferentes.
Não tenho queixas ou reclamações sobre aquele dia. Foi fantástico para mim. Uma grande honra e sem dúvida um grande aprendizado. Sai de lá com a sensação de dever cumprido. Tomei meu rumo em direção á Avenida Praia de Belas satisfeito pelo presente que recebi do Duda. O mais importante para mim naquela noite de setembro foi ter ensaiado com eles, uma banda memorável e inesquecível. Com certeza sou um fã realizado.

O BRUXO EM PORTO ALEGRE

Este texto é de 2001 e foi escrito para a disciplina de entrevista e reportagem quando eu cursava jonalismo na Unisinos. Fala sobre um workshop que o músico Hermeto Pascoal oefereceu em Porto Alegre. vale a pena lembrar. Segue a íntegra:

Nesta sexta-feira, dia 14 de setembro de 2001, o músico alagoano Hermeto Pascoal presenteou os porto-alegrenses com uma oficina de música gratuita.
O Teatro Renascença ficou lotado para ouvir os sons e as estórias que o "Mago da Música" tinha pra contar. Brincalhão e muito simpático, já na fila de entrada do teatro, Hermeto aproximou-se do público e perguntou:
-"Esta fila é para ver a Xuxa"?
Gargalhada geral. Ali, o gênio mostrou-se simples e muito bem humorado.
A apresentação começou descontraída. O músico multinstrumentista trouxe uma bolsa que chamou de "a sacola de bugigangas", de onde tirou vários objetos estranhos. O primeiro foi uma pequena chaleira, de onde inacreditavelmente Hermeto soprou e fez um som de trumpete. Homenageou o amigo Miles Davis e depois de tocar um breve tema na chaleira, disse o seguinte:
-"Albino Crazy"! Era assim que o Miles me chamava.
Pascoal contou como começou a fazer música:
-"Meu avô era ferreiro. Jogava os restos de ferro fora e eu os pegava. Tirava sons lindos, mas minha mãe achava que eu estava ficando maluco, mas com o tempo ela até chorou me ouvindo tocar. Eu tinha mais ou menos oito anos".
Logo demonstrou sons feitos com a camisa, com a buchecha e com a barba. Quando um celular tocou na platéia, atrapalhando a palestra, o músico largou o microfone e correu para o piano que lá estava. reproduziu o som do celular e tocou durante uns dois minutos. As pessoas assistiam deslumbradas o poder de captação e audição aguçada que o velho senhor de sessenta e poucos anos mostrava. Ao término da apresentação improvisada, Hermeto foi aplaudido de pé e logo pegou o microfone dizendo visivelmente emocionado:
-"Isso tinha que acontecer. Isso é música"...
Da sacola de bugigangas ele tirou uns brinquedinhos de borracha, daqueles para bebês. Com eles fez um belo maracatú. Homenageou um amigo gaúcho, o também músico Renato Borghetti, tocando na sanfona a música "Tomando um chimarrão" que compôs para Borghettinho.
Respondeu algumas perguntas e logo convidou a platéia para improvisar com ele no palco. Vieram flautistas, pianistas, violonistas e percussionistas.
O alagoano deu um show juntamente com os convidados de última hora e preferiu não se despedir formalmente. Saiu de cena tocando "Lagoa da Canoa" e dizendo que em breve retornaria à capital.
O bruxo passou pela cidade, mas sua magia ficou.