sábado, 12 de setembro de 2009

OS CAINGANGUES

Vindo de Frederico Westphalen, paramos em Palmeira das Missões para fazer uma troca de ônibus. Uma “baldiação”. Prática muito comum em cidades do interior e até mesmo na zona rural de Porto Alegre. Todo esse processo duraria trinta minutos. Tempo necessário para ir ao banheiro e fazer um lanche. Sai do velho ônibus, quase caindo aos pedaços e fui procurar o toillete na rodoviária de Palmeira. Olhei para um lado, olhei para o outro e me transportei para o velho oeste. Sábado pela manhã, e a cidade vazia. Parecia uma cidade fantasma. Veio em minha mente a canção “The good, the bad, the ugly”. Isso mesmo! Aquela canção famosa que lembra o faroeste. Fui até a única lanchonete da rodoviária e comprei algo para comer. Peguei alguma coisa para levar, pois a viagem até Porto Alegre seria bem longa. Sentei num antigo banco de madeira que lembrava os assentos de um trem e comi um sanduíche. Havia uma caixa de som rouca que transmitia um evento (acho que era uma missa). Aquilo soava baixinho, mas ao mesmo tempo atordoante. Na rodoviária, havia no máximo umas dez pessoas (todas esperando o mesmo ônibus pinga-pinga para a capital). Surge então um vendedor de chapéus. Peças realmente bonitas feitas de palha seca e outras de vime. O rapaz me ofereceu. Recusei. Não uso nem boné, o que dizer de chapéu. Então apareceu uma menininha. Uma indiazinha de mais ou menos quatro anos. Uma belezinha. Lembrei da Carol. Minha filha que sofre com minhas ausências temporárias, mas está sempre me esperando com aquele lindo sorriso. A pequena índia nem falava direito. Tanto pela idade quanto pela situação precária em que vivia. Notava-se que ela vivia marginalizada naquela cidade. Mas pobre menininha, tão novinha e jogada pelos cantos. Ela tentou falar algo, mas confesso que não entendi nada. Era uma espécie de dialeto indígena. Mais tarde, pesquisando na Internet, descobri que os índios que vivem naquela região são caingangues. A indiazinha estava com fome, pois apontou para o meu sanduíche. Entendi o recado e com um sentimento descomunal, entreguei o lanche a ela. Essa menina o devorou com tamanha voracidade, que tive medo que ela se engasgasse. Um momento triste, e que é comum em todo o país. Abri a mochila e peguei um pacote de biscoitos. Dei a menininha e ela saiu correndo, sumindo no horizonte. Um pouco mais aliviado, arrumei minhas coisas, pois o ônibus estava para chegar. Ouvi um burburinho e olhei para o lado. Uma legião de índios de todas as idades vinha em minha direção. Umas seis pessoas. E na frente do povo vinha a indiazinha. Claro, dei comida a ela e ela chamou a família para comer também! Minha nossa... Os índios chegaram perto e disseram que queriam comida, roupas, dinheiro. Estavam determinados naquilo. E eu desesperado, sem saber o que fazer desviava das pessoas e tentava fugir. Foi quando o ônibus apareceu e eu pulei pra dentro sem dó. Espiei pela janela e a tribo já tentava garantir comida com outras pessoas que chegaram na rodoviária. Que pesadelo! Deitei o banco, respirei fundo e adormeci. Sonhei com índios. Por que será?

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