sábado, 12 de setembro de 2009

CANTAR E CANTAR E CANTAR

Um passo importante eu já havia dado. Aprender a tocar violão era muito difícil. Mas eu já arranhava algumas músicas. Mas faltava algo. Era vazio, solitário demais. Via então o Caetano Veloso, o Gilberto Gil na TV tocando aqueles violões com maestria e cantando muito naturalmente. Fiquei muito a fim de cantar, mas a timidez atrapalhava.
Lembro que foi o ano que freqüentei um grupo de terapia. Uma psicóloga fazia perguntas sobre nossas vidas e as pessoas tinham que falar. Mas o simplesmente "falar" era difícil para aquelas pessoas. Então eu via que eu podia, que eu conseguia, então eu era sempre o primeiro a iniciar os debates. E a psicóloga sempre anotando tudo.
Três semanas se passaram e ela disse: "Márcio, o que te angustia"? eu respondi que eu queria aprender a cantar, mas isso era uma coisa muito difícil para mim. Disse que já estava aprendendo a tocar violão, mas queria algo mais. Eu era um garoto de dezesseis anos, todo grilado com a vida e com as pessoas. Tinha medo de me expressar, de ser vaiado, ignorado, sei lá.
A psicóloga me chamou para conversar a sós e disse que eu não tinha nada de errado. No meio de todos aqueles adolescentes eu era o que sempre dava o pontapé inicial nas conversas. "Coragem você tem", disse ela. Você está liberado das sessões, há muita gente precisando mais do que você Márcio. segue em frente e me promete uma coisa, lute sempre pelos seus objetivos".
Naquele dia sai do consultório feliz e ao mesmo tempo pensativo. Queria a todo custo aprender a cantar, pois pelo canto eu me desinibiria e me sentiria melhor. Fui pra casa cantarolando, tentando encaixar letras nas melodias que eprendera ao violão.
Ao chegar em casa, meu pai me esperava com um presente. Um vinil da Elis Regina. Um long play chamado "Elis canta Milton". Meu pai disse: "Essa cantava muito. Ouça e me diga depois". O pai estava certo. Me apaixonei na hora. Ela cantava pra fora, alto, não tinha medo.
Me convenci que cantar era manifestar o estado de espírito. Era pôr pra fora coisas que encomodavam. Era expulsar os demônios que atrapalhavam minha juventude. Então comecei a cantar sozinho, pra mim mesmo. Primeiro eu tinha que me descobrir cantor, para depois mostrar aos outros...

Nenhum comentário:

Postar um comentário